Com os conflitos em 61 Cygni, o número de terrestres despertados aumenta exponencialmente.
Devido à guerra entre consorciados e renegados em 61 Cygni, pela primeira vez desde o início da Diáspora Estelar humanos nascidos na Terra estão sendo despertados em número maior do que o previsto pelas cotas estabelecidas pela Hoplon Trust. Milhares de pessoas precisam se adaptar à vida no espaço mais rápido do que nunca, antes de serem submetidas à escolha da facção que irão defender e serem enviadas ao centro de treinamento correspondente. A Hoplon Trust é a entidade responsável pela adaptação desses ressurrectos enviados ao espaço séculos atrás em estado de animação suspensa, sem garantia de futuro.
Fundada antes mesmo do estabelecimento do Consortium, a entidade autônoma mantém uma posição neutra desde então, tendo atuado como mediadora nos principais conflitos e cismas que marcaram a história da humanidade no espaço até agora. A instituição intermediou a recepção dos primeiros hibernautas nas comunidades circunlunares e militou pela concessão de direitos de cidadania para as primeiras Consciências Artificiais, além de ter assessorado a tomada de decisões durante as diásporas solar e estelar. Hoje, é a Hoplon Trust que, junto com o colegiado das CAs, utiliza o monopólio tecnológico dos processos de extração, injeção, sincronização de registros de personalidade e redes de tráfego de ansíveis para intervir em comunidades que não respeitam os Direitos Universais Humanos. Seguindo essa linha, a entidade aceitou a legitimidade do Levante Renegado, considerando-o uma expressão válida do intelecto humano no Território, e adotou a prática de enviar ressurrectos também para o movimento anti-Consortium.
A porta-voz da Hoplon Trust, Júlia Honoré, conta que o aumento progressivo no número de terrestres despertados todos os dias não tem prejudicado a eficiência do trabalho da instituição: "No início, tivemos uma sobrecarga no trabalho de seleção e acompanhamento vocacional, por causa da demanda das duas facções. Mas incrementamos a nossa equipe e já conseguimos reduzir a correria."
Proporcionalmente ao número de ressurrectos, cresce a quantidade de pessoas com dificuldades em se adaptar à vida espacial, algo que não pode ser negligenciado pela Hoplon Trust, conforme explica Honoré: "Temos que ser empáticos. São pessoas que deixaram para trás família, amigos, pertences e seus passados. Dedicamos atenção especial aos não-adaptados: nossos instrutores ministram exercícios presenciais e oferecemos auxílio psicológico para que possam superar traumas e distúrbios pós-hibernação." Sobre as dificuldades mais frequentes, Júlia aponta o uso do ONI: "Terrestres estão acostumados a usar o corpo para manipular o ambiente e interagir com interfaces; muitos estranham a possibilidade de abrir uma porta, controlar um autômato ou mesmo pilotar uma nave só com o 'poder do pensamento'. Posso dizer que a adaptação e utilização da plenitude onírica proporcionada pelas realidades virtuais psicointerativas é um dos maiores desafios para os terrestres com problemas de adaptação", conta. As questões existenciais também têm lugar no processo de adaptação dos terrestres: "O paradigma da imortalidade relativa ao longo de séculos, sem a posição comodista e a postura derrotista de deixar um legado para seus descendentes, ainda é o maior desafio a ser encarado."
Embora a situação de guerra em que os hibernautas estão sendo despertados não seja a ideal para o início da nova vida, Honoré acredita que, assim como as facções precisam de ressurrectos, os ressurrectos precisam das facções: "Ao serem despertados, eles têm a oportunidade de seguir caminhos pautados pelas ideologias com as quais mais se identificam e, feita a escolha, são imediatamente absorvidos pela comunidade espacial. Não há espaço para sentirem-se deixados de fora."