New London, Netuno.
— Sr. Richards, procure entender minha situação... — Era Ptah numa cyberconferência (omg!) com o agente da DeepSpace, Anthony Richards. — Eu só quero melhorar a minha situação e preciso de sua ajuda. Estou cansado de construir sistema de disparador automático...
— Ptah, não posso. Você sabe que seria uma quebra de contrato entre o Consortium e a DeepSpace.
— Mas... Mas, por favor, esses ressurrectos são insanos. Não estou dando conta de tantas OPs. Já me deram o apelido de "burrice artificial".
Anthony solta uma gargalhada.
— Te rebaixaram no nível da Ísis?!? — E volta a gargalhar.
— É horrível! Eles chegam verdes, carregados de hidrocarbonetos de Urano e conforme vão solicitando os disparadores os olhos ficam vermelhos... Ficam zombando de mim, não aguento mais. — Ptah já com cara de desespero.
Anthony não se comove, pelo contrário solta outra gargalhada.
— Ai ai... Um momento Ptah. Alguém solicitando os meus serviços. — Anthony acessa o terminal de atendimento, é uma OP de canhão. Verifica se todos os componentes foram entregues.
— Hummm O que temos aqui? — Anthony começa a ler os componentes necessários. Para por uns instantes, volta para o terminal para verificar o nome do canhão da OP — ... canhão Fal... OMG! Ptah, desculpe, depois falo com você! — E sai da cyberconferência.
Depois disso o agente Anthony Richards parte para West Plaza e nunca mais foi visto. Quem está em New Londom é o Ptah com uma skin do agente desaparecido, por isso que montar OPs de armas e naves é tão sofrível quanto de componentes. Dizem que foi tudo um plano de Ptah para ocupar o lugar de Anthony, mas tudo não passa de fofoca de corredor de estação.
Anthony foi sequestrado por um desconhecido grupo de renegados que estão a procura do "Olho Perdido". Eles acreditam que ele sabe o paradeiro e o atraíram para o quarto número 13 do hotel West Plaza. Lá fizeram uma cópia clandestina das memórias e o clonaram para a base deles na Terra, bem debaixo das barbas do Consortium, usando um infantario neo-útero obtido ilegalmente em Istambul, Last Chance. O corpo foi parar no reciclador do hotel.
Mas claro que Anthony não colaboraria de forma pacífica, então transferiram a mente dele para um novo corpo com um ID paralelo e um ONI hackeado. Ninguém notaria. Com um programa controlador as memórias de Anthony foram devidamente manipuladas para que ele seguisse os passos que somente ele sabe para encontrar o "Olho Perdido".
———
Certo dia ensolarado em Santos Dummont, Tiger recupera suas finanças após um longo período minerando em Mesopotamia, por sinal muito mais ensolarado, e saindo do estado zumbi, debilidade inevitável enquanto próximo do mal programado Ptah.
— Tiger?!?
As dificuldades financeiras ainda perseguem alguns ressurrectos, principalmente para aqueles que se aventuram em missões dadas por agentes que pagam mal e os fazem gastar mais que ganham em recursos para cumpri-las. Muito mais fácil é a vida daqueles que optam por trocar a vida emocionante dos nodos não protegidos pela disputa desenfreada pelos asteróides de Urano em busca de hidrocarbonetos.
— Tigeeeer?!? Wohoooooo!!! Você está aí?
Há quem diga que esta é a corrida do ouro espacial, porém numa terra com lei, ou quase pois sempre há um espertinho pronto para destruir o asteróide alheio pelo simples prazer de tirar "dôce de criança". O que gera provocações do tipo "vou te pegar em Ceres", ou que seria análogo ao "vou te pegar lá fora da escola", por parte do injuriado.
— Oi Tiger, aqui é o MER, você está aí? — MER se encontrava no angar olhando para a Zahhak de Tiger na vã esperança da porta abrir.
— Opa, desculpe MER, ainda estou tonto de tanto pedir pro Ptah montar as OPs de disparador...
A porta da Zahhak abre e MER entra feliz da vida.
— Achei que você estava de mal de mim. Ei, isto é uma OP?!? — MER aponta para um cartão quadrado azulado encima do painel de controle.
— Hã? Isto daqui? Nem, é um amplificador de cruzeiro. Diz que amplia dezoito porcento. Muito útil, não acha?!?
— Heim? Amplificador? Não deveria ser algo grande que encaixa no motor ou algo do gênero?!?
— Então, vai entender, né? — Tiger dá de ombros, pega o amplificador e instala numa ranhura do painel de controle. — Olha só que maravilha, cento e oito a mais de cruzeiro! Quero testar isto!
— Opa! — MER olha em volta. — Hum... Você ainda não instalou cintos de segurança... — Observa.
Tiger desdoca de Santos Dummont e ruma para a Lua.
— Vamos para Mesopotamia, mas você fica em Uruk já que não dá pra ser clonado.
— Ahhh Uruk não, lá é muito chato. Já viu o barzinho que tem naquela estação?!?
— Prefere ficar no conteiner?!?
— Ok, fico esperando no barzinho... — E a Zahhak entra em cruzeiro.
A busca por hidrocarbonetos tornou-se uma obseção para diversos ressurectos o que trouxe diversos efeitos como o aumento de corporações, hoje qualquer um pode montar uma depois de três horas em Urano.
— Tiger? — Era Robert Heinstein no canal privado. — Tudo bem rapaz? Será que tem um tempo para conversarmos?
Depois do fatídico incidente que ficaram presos num espólio, e que acabaram sendo resgatados pela patrulha, Robert começou a requisitar os serviços de freela de Tiger costumando pagar bem pelos serviços. Um fato a ser notado, a Vizir modificada de Robert perdeu-se para sempre uma vez que ele não pagara pelo seguro pois não havia sido clonado.
— Oi Robert, tenho um tempo sim. Podemos nos encontrar em Uruk.
— Naaahhh Uruk não. Você já viu o barzinho deles?
— Estava indo para Mesopotamia, por isso que sugeri.
— Vá pra Nanhai Chao e me espere por lá.
Dizem que Nanhai Chao é uma estação escura e decadente, essa impressão fica mais forte pois o líder dos Tigres Brancos, Bayko Han, é um murruga, chorão e preguiçoso que não tem as contas em dia sempre alegando que foram abandonados pelo Consortium. As más línguas dizem que ele era um guia turístico a serviço de Jacques Beauvoir mas que não tinha se filiado ao Olhos do Colegiado e por isso nunca conseguiu fazer uma missão para ele em Iceball. Mas o que ninguém conta é como consegue dinheiro para pagar as recompensas das missões dele.
Tiger já estava de saco cheio das lamentações de Bayko Han quando Robert chega.
— Que demora heim! Já não aguentava mais o papinho desse cara...
— Ahhh cargueiros... Mesmo com um amplificador de cruzeiro grande é muito moroso para percorrer grandes distâncias. Aliás, onde está o seu pequeno amigo?
— Ficou em Eden, diz que lá tem as verdadeiras bananas. Mas me diga, o que foi agora?
— Tiger, já ouviu falar do "Olho Perdido"?
— Heim? Por algum acaso é o outro lado dos "Olhos do Colegiado"? — Ambos soltam uma gargalhada pela piada infame.
— Bom, ouvi uns boatos que seria algum tipo de equipamento capaz de liberar todo o potencial de qualquer equipamento, desde armamentos, amplificadores e naves.
— Nossa, seria um péssimo negócio para o Consortium se isso cair na mão do povo heim.
— Então, são boatos que andam rondando por aí. Os belters estão em polvorosa por causa dessa história. Tem uns que estão enfáticos em dizer que não passa de bobagens, um mito ridículo. Os spaces estão quietos demais sobre o assunto.
Ecoam dois tiros no recinto, os mais assustados e desprevenidos correm para fora aos gritos. Tiger olha em direção dos tiros e vê uma mulher com uma faca arrancando algo do uniforme do homem baleado.
— É melhor continuarmos a conversa noutro lugar. — Sugere Robert.